Para startups que precisam escalar com poucos recursos, a escassez de programadores já é uma barreira. O Departamento do Trabalho dos EUA diz que, até 2030, o mundo pode ter mais de 85 milhões de vagas ociosas nessa área. A estimativa é que isso cause às empresas uma perda de receita em torno de 8 trilhões de dólares.
Diante disso, startups vêm adotando o low-code/no-code (LCNC) como uma saída para acelerar entregas com menos dependência de times técnicos. E, acredite: a Gartner aponta que o mercado LCNC cresce 20% ao ano e já movimenta cerca de 14 bilhões de dólares.
De soluções básicas a sistemas completos
O low-code/no-code começou como ferramenta básica para criar formulários, cadastros e fluxos de aprovação básicos. Coisas que ajudavam startups a validar algumas ideias com agilidade, sem precisar contratar um desenvolvedor. Mas com a evolução do SaaS e da IA, essas plataformas ganharam muitas capacidades.
Hoje, já é possível construir sistemas, apps personalizados e automações com interfaces visuais, lógica configuráveis e integração com outras plataformas. Uma edtech, por exemplo, consegue criar com LCNC um app para escolas com sistema de matrícula, pagamento e notas. Em vez de meses de desenvolvimento, a entrega sai em semanas.
LCNC vs. Full code? Não necessariamente!
Em startups, onde o backlog é sempre maior que a capacidade de entrega, o LCNC entra como um aliado dos desenvolvedores, não como substituto do codebase completo. Ele tira da equipe a sobrecarga de demandas operacionais, especialmente as mais simples, libera tempo para focar no que exige código pesado (como segurança, integrações críticas e fluxos que exigem escalabilidade) e dá mais independência para times de negócios.
É comum ver áreas como marketing ou operações usando plataformas LCNC como a da Bubble.io para criar fluxos, dashboards e protótipos. Com o apoio da IA, essas plataformas conseguem gerar interfaces, definir lógicas condicionais e adaptar fluxos com muita simplicidade. Isso reduz o tempo entre ideia e teste, que é o que define a vantagem de muitas startups.
Atenção a estes três pontos
Quando várias áreas da empresa começam a criar suas próprias ferramentas sem uma coordenação mínima, o que era pra ser ganho de eficiência pode se transformar num problema de negócio, criando verdadeiros Frankensteins. Isso abre margem para falhas, vazamentos de dados, sobreposição de esforços, um grande aumento de custos e até violações de compliance. Por isso, é importante estabelecer diretrizes claras: quem pode criar o quê, com qual padrão, usando quais dados e com qual nível de acesso. Sem esse controle, o LCNC gera um caos ingerenciável.
Outro ponto são os limites. Apesar de toda a evolução, soluções LCNC ainda não dão conta de tudo. Sistemas que exigem alta performance, integração com legados ou customizações específicas ainda dependem de desenvolvimento tradicional. Não adianta esperar que uma plataforma low-code resolva, sozinha, o core de um sistema bancário, por exemplo.
Além disso, o discurso “construa em minutos” pode iludir quem não conhece os bastidores técnicos. Sem um alinhamento estratégico e sem suporte técnico, o uso da plataforma pode se tornar um gerador de dívida técnica. É comum ver startups empolgadas com a autonomia dos times de negócio, mas que meses depois precisam refazer tudo, inviabilizando o negócio.
Alguns dos problemas clássicos incluem interface “travando” constantemente, custos de escala imprevisíveis, gambiarras com bugs de difícil solução, inconsistência de dados, impossibilidade de integração com alguns sistemas, incapacidade de monitoramento fino, gargalo de uso gerando erros aos clientes, bloqueio de portabilidade (vendor lock-in), entre outros.
Ou seja, startups que mergulham de cabeça no LCNC sem preparar o terreno acabam criando o que queriam evitar: silos de informação, retrabalho e riscos operacionais. O ganho acontece quando a liberdade criativa vem acompanhada de uma boa estratégia técnica.
O que vem por aí?
A evolução do low-code/no-code está em um momento acelerado. A integração da IA com as plataformas facilitam melhorias nos fluxos, preveem erros, geram interfaces adaptativas e até escrevem parte da lógica com base no comportamento dos usuários.
Além disso, o LCNC está migrando do protótipo para o core business. Startups que atuam com supply chain, finanças, atendimento ou educação já estão usando essas plataformas em produtos principais. Paralelamente, cresce a cultura de squads multidisciplinares, com negócios e tecnologia atuando juntos. No fim, para muitas startups, esse é um modo de operar mais ágil, acessível e conectado com os desafios do crescimento.